
Depois de três meses de temporada do espetáculo "Novos Velhos Dias", aí vai um balanço:
- Média de 30 espectadores por dia, que para os parâmetros do teatro de um grupo iniciante e desconhecido é muito, mas muito bom. (só para fazer uma comparação: meu grande amigo Fábio Lago, que está atuando em "HAMLET", com Wagner Moura, têm lotado o teatro com capacidade para 500 pessoas, 3 dias da semana há quase três meses, com fila de espera para compra de ingressos)
- Público formado por amigos, parentes, amigo de amigos, colegas, boca-a-boca e todas as outras categorias que se encaixam em "conheço alguém do elenco de alguma forma". Ou seja, pessoas totalmente desconhecidas, que viram a peça em algum jornal ou revista, foram inexistentes. Daí fica a pergunta: pra quê serve assessoria de imprensa? A nossa assessora é maravilhosa, fez um trabalho excelente, colocando nossa peça em todas as mídias viáveis, porém o brasileiro não tem o costume de abrir uma revista e procurar uma peça "do além" e sair de casa pra assistir, a não ser que tenha algum famoso no elenco.
- O preço do ingresso é ridiculamente baixo, além do mais todos ganharam o direito à meia-entrada, como uma maneira de chamar público. (mais uma consideração sobre o "Hamlet" do meu amigo: nosso ingresso custa 7,50 e o dele custa 80,00)
- Apesar do ingresso barato, conseguimos pagar algumas dívidas e não sair no prejuízo, pagando a equipe técnica do espetáculo com uma certa tranquilidade. Mas ainda temos dívidas, que foram feitas para bancar o espetáculo.
- A reação geral do público: todos sentem uma unidade muito grande no elenco, união, garra, vontade de fazer teatro, talentos equivalentes, energia. Se foram sinceros conosco, posso dizer que 80% do público gostou. (em tempo: como dizia Nelson Rodrigues: "toda unanimidade é burra")
- Espetáculos cancelados por ausência total de público: 1 (egos feridos: 9)
- sensação particular da atriz que vos fala: temporada não é fácil, é preciso matar um leão por dia, esquecer da vida, das tristezas, do trânsito, da falta de grana e de todos os problemas em prol de um espetáculo que precisa acontecer muito bem todos os dias. O ator no palco não leva sua vida, esquece os problemas e a platéia merece sempre o seu melhor.
- Balanço do grupo, na minha visão: união ainda maior, alegria de estar no palco, alegria de estarmos juntos, orgulho de termos conseguido colocar a peça de pé com muito suor e sem patrocínio.
- Dinheiro no bolso: nenhum. Ainda pagamos a gasolina e comida nos dias de peça e não recebemos nem um real da bilheteria.
-Saldo de amigos queridos que foram me assistir: todos os que importam, salvo raras excessões dos que importam e que não foram.
- fazer a peça para pouca gente: já tivemos dias de 5 espectadores e posso dizer que não é nada agradável o "eco" que volta depois das falas, e que tirar a blusa pra pouca gente é igualmente desagradável. Não me entendam mal, mas a impressão de que todas as atenções estão voltadas para você é ainda maior com pouca gente.
- Cantar sozinha deixou de ser um tabu. Tirar a blusa também.
- É impressionante como um personagem pode ter características que vc adoraria ter em vc mesma, mas a mágica do teatro e do personagem fazem vc só tê-las no palco.
BALANÇO GERAL: FAZER TEATRO ALIMENTA MINHA ALMA. QUEM ESCOLHEU VIVER DELE NÃO ESMORECE DIANTE DAS DIFICULDADES, TÃO PEQUENAS PERTO DO PODER TRANSFORMADOR QUE ESSA ARTE POSSUI.
PS: HAMLET está um primor. Meu amigo idem. Wagner Moura humanizou aquelas falas célebres do personagem mais famoso do teatro, fazendo o "SER OU NÃO SER" deixar de ser mero clichê. Vale a pena conferir, apesar do preço alto, que aliás é a minha única ressalva à peça.